terça-feira, 17 de outubro de 2017

massa.

ela entrou no metrô apinhado de gente naquele dia nublado. o coração apertava, engolia a seco as palavras ásperas, as reticências infinitas. seria parêntesis ou pontos finais? sentia saudade dos abraços envolventes, dos olhares profundos. as coisas tinham mudado. velhas perspectivas. e estavam predizendo as coisas que nós já sabíamos. observou as pessoas ao redor, suas roupas, suas risadas e des-sorrisos; sombrinhas, ternos, sacolas, todo tipo de tralha que carregamos com a gente sem saber por quê. sobrancelhas franzidas, sorrisos amarelos, dedos frenéticos nos telefones, braços inquietos. milhões de universos emocionais pairando na luz fluorescente. quantos deles tinham amado? quantos tinham sido amados? será que havia paixão em frequentar vagões lotados na terça-feira matinal da grande metrópole ou eram mesmo aquele pálido conjunto que refletia a luz nublada daquele dia de devaneio?
um senhor tossiu, despertando-a daquele mergulho reflexivo. com quantas pernas essa gente se mantém de pé nesta vida de gado? com quantos passos construímos relações que nos inspiram ou nos transformam? seremos nós melhores ou piores depois dessas pessoas, tantas que a gente se esquece, tantas que lembramos como fosse ontem, tantas que nosso coração já recrudesce, tantas que já não há mais lágrima sequer, ou, se há, já não possuem o mesmo valor. só esse nó na garganta. quando a gente decide que alguém vai mudar a nossa existência ou vai só ser o cara do nosso lado no coletivo cheio, lendo umas poesias de manuel bandeira? quando aconteceu, não sei. o momento sutil que fica suspenso, os reflexos dos tímidos raios de sol na janela, a gota d'água pairando na névoa fria. quando começamos a contar? a quantificar os seres humanos entre os que nos magoam e os que ainda não nos conhecem? a quantificar coisas que não deram certo e as que ainda não aconteceram, esquecendo das horas, das qualidades, das admirações, dos suspiros. até quando seremos essa manada que foge com o apito da porta, que se dispersa pelas escadas rolantes do mundo afora, mas que assim mesmo se arruma e sai de casa todo dia como um gado novo. até quando...

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

poema pra bruna

você me olhou com esses olhos redondos e com a típica testa franzida, as sobrancelhas sobressaltadas: seu traço típico. uma mulher arisca e arrojada. era algo que me agradava, essa coisa de viver com gente que inspira a gente. que dá asas aos nossos sonhos e pega o espírito do nosso riso. uma mulher forte, de luta, carregava as marcas da vida e um furacão dentro de si. fugida do interior, certamente de tempos de outras nuvens e de outras histórias, de campos verdes e de outros céus azuis. seu estilo questionador, esquadrinhador de personalidades me soprava a vida. quem sabe até carregava algo de filha de iansã, como eu, talvez essa tempestade dentro dos olhos. revirava minhas entranhas de pequena burguesa, por vezes cuspindo a poética realidade da vida na minha face. cheia de piadas infames, esse teu humor negro singular e um gestual de paralisar aqueles que ousam te ler. é pra ser codificada, essa tua lua em áries que diz tanto sobre seu sol em peixes. pra você escreveram cartas, poemas, sonetos, livros inteiros sobre liberdades muitas. foi pra você que forjaram esta luta, para que sua presença protagonizasse as rosas e as chamas, os livres e os suspeitos, o escrever com a luz do seu jeito discreto de estar nos bastidores e articular a própria revolução. uma mulher inteira, hoje metade de mim, como não te escrever sobre prosas prosaicas e nossas pós modernidades? como não te colocar em meus questionamentos diários, em meus diálogos mudos, nas minhas mandingas e meditações - se todos os dias me tornas escafandrista de mim mesma, me fazendo mergulhar nos meus devaneios e me perguntar se tanta ansiedade um dia não vai me fazer rodar o mundo ou, quem sabe, parar de rodar em círculos. te faço, pois, esse poema sem métrica, sem rima, sem teto. pois não há uma outra consequência lógica que não esbravejar essa força feminina que compartilhamos (quase) todos os malditos dias. façamos um brinde aos dias de ontem, aos dias do amanhã, aos porres que ainda não tomamos, mas que certamente tomaremos, aos dias que nosso coração não chorou e a todos aqueles que, encharcados de dor e amor, nos deixamos afogar. às carnavalidades que ainda não problematizamos nós ousamos celebrar. seremos senhoras de todas elas, quando com esses pormenores tão imensos, desafiamos a lógica superficial das pessoas de plástico e seguimos com nossa espontaneidade de fotossintetizar a intensidade.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

tardes brilhantes e devaneios.

e hoje me dei conta de que continuo a mesma, apesar de você, apesar de vocês - vocês todos e todas. me dei conta que mudei incansáveis vezes, me vi de ponta a cabeça, na ponta dos pés. tão na ponta que alcei voo. mudei tanto, que voltei a ser eu mesma, aquela de sempre com sardas na cara, que gosta de sal e luz, gosta e mar e música. é quando a gente se dá conta de tamanha completude - quase como que um reconhecimento, nossa face no espelho encarando a gente mesma alguns anos depois e dizendo "oi! como você mudou, mas estava sempre aí, eu sabia!". o mais atraente das metamorfoses internas é saber que nossas motivações são, nada mais, nada menos, que a internalização de nossas próprias vivências, desejos, anseios; aquilo que nos move é infinito assim como a nossa melhor parte: a parte de dentro. e por isso o a-pesar. ter coragem de ser quem se é, cumprimentar o próprio reflexo requer raridade, requer quilos. não é efêmero, volúvel. é consistente, complexo. isto porque possui o peso da responsabilidade de cativar a si mesmo, todos os dias, o tempo todo. é necessário exorcizar as máscaras. sobretudo, possui como requisito enfrentar os próprios demônios, avistá-los cara a cara, saber seus nomes. e por isso mesmo tão singular. peculiar, eu diria. um chá de alecrim, um bom livro, a rede colorida e o rio de janeiro pondo seu sol sobre mim.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

desrevolucionários.

ali, bem atrás do castanho, atrás da piscada de cílios compridos - eu te vi. no fundo dos olhos, vi imensidão. a profundidade tão verdadeira que dolorida, tão real que corta fundo. a essência, a coragem. por na conta o peso do mundo, as responsabilidades da vida. leve como um instante, uma fotografia e ainda pesa uma tonelada. tem o peso do sorriso que arranquei de você, tem o peso de uma lágrima - ou de muitas. pesa o abraço não dado, a faculdade não terminada, o quarto vazio, pesa o peso da ausência do seu cheiro natural que fica grudado em mim. pesa tudo aquilo que ainda não vivemos, as conspirações que não saberemos. é leve como uma efemeridade e profundo como poderia ser a própria eternidade. o instante que nunca acaba, a luz que não apaga, enquanto a gente ri dos outros madrugada adentro e depois se pergunta por que dormimos tão pouco. me atrasa o trabalho, quando te peço pra que faltes o teu: mendigos da felicidade que causamos, num mundo onde tantos estão obcecados em penas, condenações e em objetivar a dor. a chama que queima e diz tanto sobre nossas almas inquietas. intensas. que não suportam as representações de papéis casuísticos do eu. que se entediam com o estabelecido, que sentem a vida, vivem a poesia, poetizam o sofrimento, sofrem sorrindo, e sorriem mascarando uma existência tão linda e tão implacável. a implacabilidade da vida requer coragem. e com a coragem de tanto dolorir, inundamos o mundo com a nossa esperança. meu mundo, teu mundo, o mundo deles, imenso mundo. tão meu, seu, nada pra eles - que cabe entre o vão das suas mãos na minha cintura, no espaço que sobra entre os nossos lábios. tão enorme que ínfimo. tão grandioso que cabe na sua generosidade em me poupar, na tua preocupação em me preservar, em insistir pra eu não ficar, pra não te escolher, pra não te mostrar uma vida inteira dentro dos meus olhos, pra não enxergar uma vida inteira dentro dos teus, pra não te dizer o que penso, não sentir o que sinto, pra te tornar alguém alheio, quando o único locus temporal que você poderia estar é dentro de meus pensamentos. dormindo seu sono pesado no meio dos meus braços. seu superdespertador sempre nos deixando na mão e nos permitindo momentos de lânguida preguiça. a porta da minha casa, passos, degraus, a porta da liberdade aberta e a comarca do rio de janeiro assistindo a gente acontecer no meio do caos e da boniteza infinita que guardamos dentro da gente.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

metalinguagem

esta página, correu meio mundo para ser escrita. acordou sozinha de ressaca umas tantas vezes. sozinha também se criou. precisou de um pouco de coragem, um punhado de amigos e de uma caneta azul. era uma página que sonhava. queria mesmo era fazer revolução: reescrever todas as páginas do mundo em sua melhor caligrafia. era uma página arrojada, gostava do novo, de ouvir discos e cozinhar os pontos finais. manchou-se, certo dia, essa página desastrada. foi um grande estrago, corretivo nenhum resolvia. teve de refazer os rabiscos e desenhar com outras cores. gostava de mar, a página silenciosa. era discreta, porém potente. carregava o peso de uma história temperada com lágrimas e coentro. não gostava de maiúsculas. achava que eram todas cheias de si, sempre querendo chegar na frente dos outros. tinha garra, essa página. levava um pouco de luta nos braços e gás de pimenta na garganta. tinha o carnaval no coração e uma fábula em seu nascimento. foi contemplada com romances - mas só aqueles nos quais valia a pena emudecer ou cantar e que precisavam mesmo é ser contados. perdeu alguns anos em prosa, mas dedicou toda a sua existência em poesia.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

movimento autoexplicativo do eu

ontem eu passei a noite no hospital. poucas pessoas souberam. menos que poucas perguntaram hoje como eu estava. não me importo muito. sou dessas pessoas discretas mesmo, reservada com meus pormenores (nem sempre tão menores assim), disponíveis apenas para aqueles merecedores da minha confiança guardada naquela caixinha com chave escondida debaixo dessa cara de gente que sabe se virar. com o passar dos anos (e das pessoas) me acostumei a ser sozinha. acho mesmo é que sempre fui. me lembro que quando tinha 16 me imaginava com 20 e poucos anos, morando num apê legal e curtindo perder as horas entre vinhos, livros e café amargo. acho que imaginei certo. só não imaginei que às vezes isso dá soninho. não por precisar de alguém do lado te regulando. não, isso nunca. jamais venderia a liberdade que os meus pais me ensinaram me deixando subir na cadeira e fazer meu leite com toddy sozinha aos cinco anos por um companheiro qualquer. o que cansa mesmo é passar noites sozinha no hospital. as enfermeiras ouvindo o seu sotaque e perguntando "você não é daqui né?" e morrendo por dentro de pena de te ver ali, 20 e poucos anos, anti-alérgico na veia, roupa de escritório, um óculos de armação preta com ar sério e questionando se amanhã estarei de pé o suficiente para agradar meu chefe. cansa, ter que ir trabalhar com sinusite crônica, ter que cozinhar com pés cansados, ter que faxinar de ressaca, ter que ter ressaca, porque é preciso sair de casa e esquecer do coração que bate errado, do chefe que te liga, do gato que te acorda, da mãe que te pergunta o que você almoçou hoje, dos amigos que só te fazem passar vergonha. cansa, ler livros dos quais já sabemos a história, arrumar o armário das coisas que você bagunçou, andar pelos metrôs preocupada com a conta no vermelho. ninguém me contou que a vida era ver amigos partindo, amigos sendo injustamente despedidos de seus empregos, amigos maravilhosos tomando anti depressivos, pra curar a gente daquilo que deveria fazer a gente querer viver: a própria vida. me afogo em antibióticos, sei o gosto exato de remédios para gastrite, sei o remédio que é pra minha geração o alívio eutanásico de se afogar numa porção alcóolica depois do expediente numa sexta-feira. nos prometeram mundos e fundos, mas na verdade, nos cobram mundos e nossos fundos estão mais vazios que a minha geladeira de estudante solteira. exigem que eu tenha experiência, mas não me dão oportunidade. exigem que eu saiba inglês, francês, espanhol, trabalhe num grupo empresarial de sucesso, seja deusa fitness, musa da balada, sarrância garantida, sexo sem limites, juventude gratidão - aos 20 poucos anos, só não nos deram o exemplo de como ser tudo isso. o que essa geração faz com tantas exigências ultrapassa aqueles maiores mistérios da física quântica que aprendemos no tão longínquo ensino médio. talvez seja uma resposta daqueles binômios de newton ou dos exercícios de raciocínio lógico que nós de humanas nunca fomos capazes de responder. a verdade meus caros, nua e crua, a vida como ela é, a gente sente no começo do inverno, nos ombros ou nas canelas. esta geração quer mesmo é se aposentar da vida. quer sentir profundo, mergulhar bonito, amar infinito. só nos falta quem apareça no meio desse apagão que a realidade traz, desse ensaio sobre a cegueira que é essa rede de relações modernas, esse jato de mangueira de bombeiro que é essa modernidade líquida - só nos falta alguém que nos acenda a luz.

terça-feira, 1 de março de 2016

indomada.

eu nasci canhota. e teimosa, teimosa como uma mula. cresci passando batom roxo e correndo atrás das pessoas loucas que me inspiram. cresci andando de cavalo, fazendo teatro, dormindo na praia, ouvindo meu pai ouvir Raul Seixas. ouvindo minhas irmãs ouvirem The Doors. sentindo sua rebeldia, aprendendo a abrir a porta, sair de casa e ganhar o mundo. sentindo meu sagitário gritar em dias de céu cinza. pintando as unhas de vermelho, de negro, de cor de unhas roídas quando a ansiedade bate. gargalhando em voo livre. jogando meu casaco nos ombros e andando pelas cidadest. nas ruas, nas esquinas, nos bares. comprando quadros, uns discos novos. esperando aquele chegar pelo correio. um disco de uma banda da Austrália, que veio da Alemanha e que minha irmã trouxe da América. pra ouvir com uma amiga da Turquia. compartilhar com um amigo do Chile. deixar meu coração num bloco de carnaval brasileiro. sem maiúsculas, editei aquele pôster daquela pintora mexicana. terminei de ler Sartre, corri de bicicleta pelo parque. respirei o ar daqui, o ar de lá. saboreei você. planejei uma viagem pra Espanha.
adquiri móveis. dentre as suas inúmeras funções, fiz amor em cima deles. desenhei mandalas na corrente sanguínea. escrevi poemas para amores que nunca me amaram. talvez viver seja isso mesmo, um passeio num dia chuvoso, os pingos batendo na gente, a gente correndo pra todo lado, a gente fingindo não ver a gente que corre; a gente não vendo que quer ficar e se molhar todo. a gente não vendo a gente que fica. e gente como eu, de alma louca, de alma incendiosa, ficando, molhando, chovendo a inundação dentro de si, pra ver se o fogo apaga. no fundo, a gente é tão a gente e é tão parecido e ao mesmo tempo tão singular. vivi por uns anos usando cachecol. tomando chimarrão. vivi por uns anos me perguntando quem era, o que queria. usei botas pra aprender que o quem sou eu é difícil de domar. sentei e pintei quadros. peguei um trem, um ônibus, uma van do precipício. peguei um avião pra nunca mais voltar. peguei carona num sonho. uma desabrigada, sem teto, uma fora da lei. perdida em livrarias e cafés. perdida em exposições. perdida nessa infinidade de mapas astrais.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

vista pro mar.

eu vi o sol nascendo cor de rosa no seu quarto interativo. o vento era fresco, ainda tinha gosto de vinho, ainda tinha a gente no meio do mar de edredons. lembrei de você com o barulho da chuva caindo e ouvi Pérola Negra mil vezes pra esquecer. tomei um café, sentei aqui e divaguei. por onde será que andava sua alma livre? e o mar nos olhava pela fresta da janela. tinha poesia escrita nas paredes. tinha uma coleção de discos que eu queria ouvir todos. eu queria devorar você. te fazer pele, te deixar cheiro. porque quando a gente não explode pra fora, só tem dois jeitos da gente não sucumbir: ou a gente vira lágrima ou a loucura nossa loucura vira letra. pinga a chuva e eu lembrando que quando você me olha, passa aquele automotor que me atropela, que me faz delírios. e eu me perco nessas horas ouvindo Silva e fazendo disso um oceano, numa eterna vista pro mar.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

encontros e despedidas.

"quis Deus - Oxalá ou o Diabo, a Pachamamma, o Cosmos ou o Universo, que eu viesse a este mundo como filha de Iansã. esse sangue de fazer acrobacias e esse ímpeto de ser tempestade, já o sentia desde pequenininha quando batia o vento nos cabelos pela janela do carro, quando montava no pangaré Desenho pelo sítio. e esses insights tipo raio, esses olhos cor de nuvem chuvosa prontos a descarregar o gatilho da alma e a inundar o peito. e esse ascendente em sagitário louco que me coloca a buscar caronas e transforma em lar os lugares que passo, as cidades perdidas, as rodoviárias e aeroportos do mundo, a fronteira entre esse país que mal cheguei mas já estou partindo e aquele país que nunca fui mas considero pacas. e uma fome sem tamanho de devorar gastronomias, melodias, arte, pintura, museus, trilhas, montanhas, praias, cenotes,
sorrisos, políticas e pessoas. sou aquele vento que precede a chuva que chegou e já está indo, que se vai mas deixa a anunciação. as casas que já morei, as histórias que já contei a mim mesma que já passei, os livros que já vivi e os olhares que eu já li: reflexos, espelhos, as faixas amarelas na estrada, as gotas de umidade correndo velozes pela janela do vôo, o capim que balança quando a gente passa acelerado pisando firme e deixando pra trás passos e passionalidades. esse sentir tão infinito que nos faz ansiosos, tão resguardado que nos torna calmos. a luz da manhã invadindo o quarto, a mochila nas costas para o próximo destino. next stop: as infinidades dessa nossa breve e intensa existência humana".

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

retrospectiva.


quando abri os olhos, fosfenos furta-cor gritaram a realidade. meu corpo era um sorriso sem fim. era uma orquestra perfeita de sons, imagens, sentimentos e sensações; era o coro dos loiros pêlos arrepiados do meu pescoço na junção com os do braço. eram os meus cílios negros inquietos, ou esse meu cabelo indomável. era o batom vermelho que você espalhou dos meus lábios, era o gosto da cerveja quando a gente se beijou. era o cheiro do cigarro no quarto. era o seu medo de gatos. era essa inspiração esquisita, essa expiração desencontrada. era o jeito que você conseguia enxergar as cores tão no fundo dos meus olhos. e eram seus infinitos olhos castanhos em 2015. e esse era meu jeito de escrever as coisas que costumavam transbordar de mim em dezembro. e dentre as infinitas surpresas, das duas casas, três empregos, cinco viagens, umas vinte cidades, cinquenta e poucas provas, cento e tantas festas, trezentos e algumas pessoas novas, uma militância sem fim, você foi a última. nos 35 do segundo tempo, às duas da tarde, numa segunda-feira ensolarada, bem no ângulo.

em 2015 eu era essa eterna existência do nosso não-ser. era uma distância enorme, de dois ou três bairros. eram milhões de anos-luz dentro das incapacidades sentimentais humanas. e ao mesmo tempo, eu era bilhões de micro-cósmicos pontinhos coloridos refletindo seu jeito livre de colorir essa vida. como definir o indefinível? como construir uma frase com tantos portugueses se sua proximidade me fez esquecer os vocábulos, calar os fonemas e perder os acentos?
esse era o meu estranho jeito de não me esquecer de olhar o céu em 2015. de não me cansar das coincidências da vida, de tornar o meu eu dentro de mim um espaço amplo pra fazer um carnaval. você chegou e levou embora a faxineira. derrubou a terra das plantas. entornou cerveja no meu colchão. deixou as cinzas de cigarro na minha cama. esqueceu seu cheiro na minha nuca. você chegou e levou embora a paz da solitude, bagunçou a porra toda. essa sou eu em 2015. esses são meus olhos profundos, meu cabelo indomável, meu sentir indecifrável. meus óculos pretos e meu esmalte também são eu em 2015. tentando entender um pouco dessa modernidade líquida que insiste em me afogar.

domingo, 29 de novembro de 2015

mulher; demasiadamente mulher.

esses dias achei um fio de cabelo branco. não sei se é o primeiro ou se é só mais um dos loiros que insistem em brotar no meio de uma cabeleira castanho escura e densa. nesses dias, percebi que meu corpo está encorpado, que meus quadris estão preenchidos, tão diferente das nuances de menina magrela de 17 anos. ultimamente, uso roupas mais sóbrias. tenho preferido o conforto de um bom sapato que vai consolar meu humor no fim de um dia de trabalho a uma ancle boot dextruidora (de pés). também aprendi a gostar de unhas curtas, de cores clássicas. adquiri um ar sério com óculos de grau de armação preta e uma marca de expressão na testa, franzida, meio que de preocupação. passei a apreciar tinto seco com o acompanhamento de um pijama de algodão, um bom livro e minha própria companhia. lá por essa época, também descobri o prazer de ir à feira aos domingos e preferir orgânicos a junkfood. ou de ficar em casa num dia nublado só ouvindo o barulho da chuva bater na janela. ou de ouvir meus vinis. ou o meu vizinho músico tocar piano ou violino ou violão e deduzir as melodias que ele toca quase todos os dias. dia desses, me peguei ouvindo blues enquanto cuidava da casa. planejei uma horta vertical enquanto tomava um café puro e amargo. aliás, descobri a infinidade da diferença entre o arábica e o conillon quando decidi que o açúcar não esconderia mais o amarguinho da vida. passei a apreciar molho pesto e a persegui-los pelos restaurantes mundo afora, a reconhecer o valor do trabalho das pessoas e a agradecer quando isso me agradava. sondei meus limites e aprendi a me permitir dizer não. a não me negligenciar como mulher, a não me deixar levar pela vontade dos demais. me tornei firme em minhas posições, porém não inflexível. conclui que se posicionar é fundamental para que não te confundam com o outro lado, mas que adotar um lado nem sempre significa decretar guerra ao outro. passei a enxergar dinheiro como um meio para se alcançar certas coisas, porém nunca um fim. passei a usar esse dinheiro da mesma forma, fazendo viagens e tendo experiências que nunca caberão na fatura do cartão de crédito. aprendi que nada paga o preço do enriquecimento de uma viagem, mas que é imprescindível ter um lugar pra voltar, no qual a gente pode afundar num mar de lençóis limpos e travesseiros confortáveis. percebi que pessoas vêm e vão, mas que fazê-las ficar depende apenas de nós; essas mesmas pessoas que ficam são aquelas que queremos nos esperando com um macarrão pronto ou com o motor do carro ligado no aeroporto, cheias de amor, quando voltamos daquela viagem.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

soroche

ou uma tatoo pra chamar de minha

toda a instabilidade estomacal passou. e agora já não faz diferença o clima seco dos Andes, o mal estar do altiplano ou a umidade do Rio. já não importa se é julho ou setembro, porque os raios de sol andam por aí me procurando, emancipados de estação. já não me importam seus apelos, seus caprichos. seus jogos de tabuleiro, seus xeque-me-mates. tampouco me fazem hesitar ou questionar. hoje quando desembarquei o sol me sorria como um cortejo. me acarinhava macio a pele. hoje quando senti esse ar cheio de amor da cidade maravilhosa, quando, em casa, o Chico cantava no rádio do aeroporto coisas sobre uma moça estar diferente - hoje eu te esqueci. foi no hoje que deixei cair as máscaras, as luvas, o não-me-toques. no hoje realizei depósitos das minhas fichas, apostas, (in)certezas. perdi no jogo, no azar; mas fui premiada na loteria do meu amor muito meu, das infinidades da graciosidade humana e seu mil e um sabores e feitiços. abandonadas no ontem as lembranças brilhantes do tempo as quais fazem parte. esqueci nas ruínas de uma cidade perdida o nosso último e derradeiro elo: o medo. encarei o sol nascente, raios enfim vencidos por uma fome de devorar a vida sem tamanho. rugindo, urgindo, bradando a essência de mim mesma, foi nesse dia em que te esqueci. e ao confundir-te com tantos e tantas, sedentos e sorridentes, vislumbrei a grandiosidade disso tudo: nós somos infinitos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

aluguel

entre cervejas, no chão, cacos; vidros, líquidos derramados. um milésimo de segundo suspenso no tempo, a insustentável leveza do ser ou não ser pairando no ar.

- ar pesado. tem cheiro de levedura e lúpulo, de incenso e fulgor; tem cheiro de jasmim, canela-cravo e pimenta rosa.

entre uma piscadela de tempo do Universo, entre o piscar dos cílios. entre o piscar dos faróis, entre nestes espaços, preencha essas lacunas. entre o lusco-fusco dos outdoors, a cidade. entre e escancare a porta, entre e apague a luz.

- aqui estamos nós, nus, nuances; tons, nunca desbravados, nunca vencidos. notáveis, nostalgicamente acelerados. somos nada e tudo, acima de tudo normais. noturnos, inegavelmente foras-da-lei.

noctilucas azuis me trazem o movimento do vento, a dança dos sorrisos, a dinâmica dos acertos; o vai e vem dos carros, o ir e vir dos passos.

- cada vez mais longos, lentos, retilíneos; pernas, sombras; cada vez mais compridas, unhas, cílios. cada vez maiores, amores, encantos, desejos. cada vez, estranhos. impossíveis despejos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

o inverno nos trópicos, o mar e os seus blues.

andei por aí. passei árvores, pessoas andando de patins; ultrapassei um túnel, entrei no calçadão por uma ciclovia; passei por gente com seus cachorros e coleiras. andei sob o céu azul. vi as montanhas, mudei de ares, de bairro. andei por aí, andei pensando e pensativa. senti o sol sob a pele, queimando, reluzindo. já ardeu. hoje não mais. essa casquinha de gente que joga a perna no mundo aprendeu a ganhar cor, brilho, luminosidade. já doeu também. e eu chorei. reclamei quando minha mãe me empetecou de hipoglós porque "eu precisava ser branca"; hoje entendo o valor - não o preço, destas sardas na minha cara. "são as cinzas das muitas minúsculas brasas das pessoas que queimam e que tu já encontrou por aí... ficaram em você como cicatrizes" ele brincava. é um jeito bonito de enxergar a vida, mesmo.
andei e estive pensando. nesse ir e vir de gentes, de vento. nesse acreditar em projetos, projeções que fazemos. imagens que viram sombras, restos de pessoas. o sol por detrás as faz tão grandiosas: mas ao real não passam de armadilhas de nossa própria mente. jogos de luz. ilusões de ótica. nossa pequena mente. aquela que não prospera. andei e ouvi o mar. andei por ele, molhei os pés. houve dias em que também mergulhei, me afoguei. em outros, deixei o sol secar, o vento que batia. aprendi a distinguir suas conchas, a sentir seu sal. a temperar com muito, pouco ou quase nenhum. desbravei suas ondas, respeitei sua mãe. distingui delicadamente os seus azuis. dias de sol, dias de inverno. tudo blues.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

desbloqueio criativo.

não há quem possa negar, nesse mundo, que eu mergulhei no verde dos seus olhos desde que vi que eles estavam iluminados na minha direção no meio das luzes coloridas da festa. não há quem possa negar que o sorriso correspondido foi o mais sincero que já emiti em toda a minha inútil existência nesse Universo. ninguém pode negar que eu ronronei mais do que qualquer criatura gatuna com os seus abraços protetores e suas brincadeiras implicantes. e quem poderia explicar essa tristeza absurda quando penso em não passear mais com seu cachorro no domingo com seu shorts de basquete?
minhas amigas dizem que você foi só um carinha. mas por que dói tanto lembrar de como você adora dormir abraçado e de como eu odeio isso em todas as pessoas - menos em você; porque eu sempre odiei. sempre tinha um momento da noite no qual eu me desvencilho; no qual preciso respirar e jogar minhas pernas livremente pro outro lado, mudar de posição; mas com você não. podia passar dias imersa naquele 'dormir de conchinha' tão nosso e tão só nosso.
o caminhão da pósmodernidade nos atropelou. de repente ficou tudo veloz, tudo velocidade. vamos desacelerar, vamos destruir as cores com um filtro de instagram. dar uma broxada virtual na intensidade. afinal, a vida já é intensa demais com os cristais líquidos dos smartphones e das relações das redes superfíciessociais. o azul do inverno tem sido melancólico. enquanto minhas amigas conversam animadas por um pouco de lambrusco, minha mente voa longe pensando no seu paradeiro.  espero, ao menos, que elas tenham anotado a porra da placa.
meus bons amigos tocam violão em casa, ouvimos meus vinis; e eu só quero me afundar na cama levemente alcoolizada pra poder esquecer dos segredos que eu te contei e que já não eram mais só meus. parece que sofrer é algo de que preciso. ao menos, textos como esse saem fluindo como uma fumaça geladinha, como quando a gente chega na janela em julho e fuma um palheiro que nos deixa pálido e com a pressão baixa.
eu estava naquele bar de rock famoso. mas fui correndo pro corredor lateral, pra poder respirar melhor. faltava o ar. algo naquilo tudo me sufocava. algo naquela história me prendia os pulmões com uma cinta. no fundo eu queria correr e gritar um grito silencioso. desses que a gente prende dentro de nós pra não ser socialmente estranho. e enquanto isso, vou preenchendo meu tempo com paliativos irreais, esperando o Universo conspirar por algo melhor do que essa tequila ruim e batizada.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

minha pedra é a ametista.

somos as desajustadas. aquelas que criticam, aquelas que não concordam. somos àquelas que enxergam para além do básico, do senso comum. e como somos analíticas! antes que você perceba meu sotaque capixaba, já analisei sua procedência, perfume, postura e estilo. não somos subordinadas. jamais seremos Amélias. mas, pomposamente carinhosas, abraçamos o mundo ao nosso redor com um senso de justiça impecável. damos pra essas coisas sociais e pra essas coisas sentimentais: enxergamos a dor. temos garra, fomos sensíveis mas somos fortes. não há uma que eu conheça que seja mulherzinha; sequer uma passou na minha vida despercebida. somos daquelas que entram e bagunçam, desalinham - simplesmente pois sua vida vai ficar melhor depois de nós.
somos profundamente leais. e enxergamos quando a lealdade não existe. observadoras, reconhecemos de longe um mau caratismo. e como, como somos sentimentais. guardamos o mundo de profundidade neste coração cheio de cantinhos e recônditos. o que fica ali guardado, por dias, meses, anos, até que haja confiança o suficiente pra tanto amor ser vomitado. mas quando acontece, meu caro, vomitamos um arco-íris em cima de quem merece. gostamos de amarelo. mas principalmente de todas as cores, onde podemos colocar nosso brilhantismo intelectual pra fora desse corpinho. lemos sartre, nietzsche, freud, foucault, becker. devoramos romances que se abrem como uma revolução dos bichos, como admiráveis mundos novos à nossa frente, os quais admiravelmente desbravamos na cara e na coragem. pois nós vamos: à luta, corremos atrás. de punhos cerrados, nos movemos. respiramos. vivemos. e com uma honestidade absurda, coexistimos. mas não somos de plástico. maquiadas, não maquiamos esse jeito de viver. ou é 8 ou é 800 mil. terrivelmente práticas, embora o mundo ainda não esteja preparado para tanto dinamismo. somos nós, que brilhamos. somos virginianas, apenas e muito.

terça-feira, 16 de junho de 2015

shine.

chovia na cidade maravilhosa. ele, maltrapilho de sentimentos, se abrigava embaixo da marquise, percebendo que os pingos de chuva que caíam eram gotas da luz do sol. sempre viu a vida desse jeito meio torto, meio diferente de todo mundo. quando algum amigo se machucava, não via sangue jorrar - e sim aquele líquido brilhante fosforecente que imitava as noctilucas brilhando a noite no mar.
ele percebia, com a sensibilidade de um morador de rua, as profundidades líquidas pessoais. entendia daquele líquido que brilhava dentro de cada um e morria um pouco sempre que alguém costurava o peito pra se esconder do mundo, dos outros e de si próprios.
permaneceu ali o mendigador de sentimentos, observando o ir e vir da existência, totalmente absorto com as luzes cintilantes que cada um levava no meio de si. às vezes, seus olhos ardiam. e ele sentia que era só. sentia que era o único que enxergava o ritmo dos pingos que caíam do céu e escorriam não se sabe pra onde e por quê. mas insistia em brilhar. ao menos, quando noite fosse, seria uma daquelas luzinhas turbulentas teimosas, que são como uma colcha de retalhos de estrelas no alto do morro - e que embora pequenas ainda queimavam.

terça-feira, 9 de junho de 2015

tijuca.

hoje eu caminhei pelo bairro pra sentir o quanto ainda lembro de você. passei naquele lugar onde costumávamos tomar sucos diferentes. sentei no bar do outro lado da rua, pra poder te ver melhor. observei nós dois chegando, de mãos dadas e sorrindo. não demorou muito e saímos, tão gelados quanto aquele sanduíche de cream cheese e salmão que eu sempre pedia. cru e cruelmente frio.
eu já te disse o quanto era injusto lidar com a sua existência. mas até esses dias de junho, ela nunca me pesou tanto os ombros. observar essas ruas que guardaram tantas das nossas andanças; o restaurante mexicano com aquela quesadilla vegetariana e uma mixelada num domingo qualquer. o posto de gasolina onde você comprou tantos kitkats com coca-cola pra gente assistir intermináveis episódios no netflix. e o metrô, onde eu sempre estava indo ou voltando pra te ver.
há alguns dias vi você me observando. estava conversando com um amigo e sentia o seu olhar me seguindo onde quer que eu fosse. todos os nossos amigos teceram comentários sobre o quanto você me olhava. e nesse mar de disfarces, nesse baile de máscaras pitoresco, terminamos sendo aqueles que nos trancamos em casa sozinhos pensando um no outro, mas que fingimos nunca ter existido. tornamo-nos tão hipócritas quanto esses casais por aí, que são de plástico e insistem em aceitar a vida e suas variações bizarras. aqueles que se sentam em bares com caras tristes de tédio ou então de saudade, lidando com as conformações de infindáveis meias felicidades.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

sujeito separado com a vírgula do infinitivo

eu, óculos de armação preta, vagando pelos bares da cidade nas madrugadas frias do começo de junho. eu, buscando no fundo de um copo maltado as borbulhas da efervescência humana. eu, bato os calcanhares da botina preta no taco encerado das escadas. eu, sento. eu, sinto a brisa me gelar os ombros e deixo a fumaça do cigarro de filtro amarelo invadir minha ansiedade. a gente ganha um carimbo de gado quando vai lá fora fumar. encurralados, assistimos o espetáculo daqueles que buscam algo mais de uma terça-feira qualquer. porque, afinal, esses rótulos não fazem sentido. essas unhas pretas já estão cansadas de testemunhar essa caminhada solitária e interminável de sentimentos sem rumo.
eu, me aprumo. eu, busco desesperadamente aquilo que não sei sobre mim mesma, em músicas, em discos, em incensos e velas; em fitas coloridas, em películas do cinema; procuro nos livros, nos quadros, nas pinturas. nas pictorescas imagens e fotografias sépias de tanto limpar a lente e fotografar novamente - a resposta para uma questão sem pergunta. o momento exato e preenchedor da busca pela existência. que faremos nós quando soubermos tanto sobre nós mesmos que descansaremos em paz se olhando profundo nos olhos um do outro? quando, deitados um fronte ao outro, refletirmos o fundo dos nossos olhares como um espelho claro e límpido? pisco. uma piscadela de milésimos no desandar dos séculos. uma crônica no vão da escada vazia. eu, óculos de armação preta. um sujeito separado com vírgula do infinitivo que é estar aqui nesse universo.

sábado, 23 de maio de 2015

poeta

artista mudo
seu manifesto
carnavalizar o absurdo