segunda-feira, 25 de maio de 2009

sou.

eu queria ter nascido à tempo de ir a Woodstock. de ver o lançamento dos vinis dos Beatles e de ouvir Janis Joplin tocando no rádio. queria ter sido americana na época que Kerouac tinha 20 e poucos anos, viajando com ele pelas estradas underground do Oeste, driblando o american way of life. de ouvir Bessie Smith tocando nas periferias longas do norte, enquanto mães negras se penduravam nas janelas pra olhar suas lindas crianças a descobrir o mundo. eu queria ter participado da Revolução Francesa, só pra poder gritar "liberté, egalité e fraternité!" no idioma francês e ver a Bastilha cair juntamente com Luís XVI. eu queria ter participado dos sagrados rituais dos Incas e de ter vivido em Machu Picchu, sentindo aquele ar rarefeito dos Andes.
eu queria ter nascido em Goa, onde a música eletrônica primitiva ainda ecoa em psicodélicas batidas hippie-contra-culturais-indianas. eu queria ter colocado combustível na La Poderosa, só pra ver o Chê rodar pelas estradas da América Latina desejando um futuro melhor para o seu povo. queria poder ter 18 anos em 1929, só pra rir da quebra das bolsas mundiais. queria te aprendido com Simone de Beauvoir como fazer com que o feminismo não seja banalizado por peruas inconsequentes. eu queria ter ido a um show do Robert Nesta e entraria em êxtase escutando ele cantar "don't worry about a thing cause every little thing is gonna be alright".
eu queria ter aberto as portas da minha percepção com Huxley e de me surpreender a cada dia com esse Admirável Mundo Novo. eu estou esperando até hoje chegar a minha carta de Hogwarts, mas se ela não chegar vou processar seriamente a J. K. Rowling por propaganda enganosa! eu queria mesmo é ser brasileira como sou, sentir as àguas quentes do Atlântico numa linda dança das areias finas do nordeste e os mares de morros de onde nasci. Comer Moqueca Capixaba dia de domingo ao som do Congo, ouvindo as velhas lendas de Maria Ortiz. Passar carnaval em Regência 50 vezes e virar o ano nas Dunas de Itaúnas dançando forró pé-de-serra com meus amigos, loucos amigos! Viajar pro Rio de Janeiro e dançar embaixo dos arcos da Lapa, enquanto o Bondinho de Santa Tereza passa por cima de mim. Cair na night de São Paulo e dps me juntar ao MSTC por uma causa realmente nobre: a justiça social. Ouvir Los Hermanos e me orgulhar da música brasileira; flertar com tio Chico Buarque e discutir com Gabeira os prós e contras da legalização da maconha e do aborto; dizer pros Engenheiros do Hawaii que concordo com muitas músicas deles e jogar fora toda essa alienação lixo que circula pela mídia.
eu queria ter nascido em 1960 pra morrer pela ditadura. Pra ter uma Kombi 64. Pra ser exilada na URSS junto com Luís Carlos Prestes, ouvindo ele me contar como Olga era bonita.
eu queria ligar a tv e assistir Elis cantando com Jobim e não essa violência absurda que nos atinge todos os dias através dos noticiários. e também queria ser terrorista nessas horas pra jogar uma bomba de anti-matéria no Senado e mostrar pros brasileiros que o real perigo não está nas favelas e sim em Brasília. fazer com que as pessoas entendam que a violência é o preço que se paga pela injustiça social e a má distribuição de renda no nosso país.
queria morrer com Marx só pra ver qual a opinião atual dele sobre o mundo, onde quer que ele esteja. queria poder ter um poder incondicionalmente grande pra trazer paz no Oriente. e não só no Oriente. queria ressuscitar Hitler e fazê-lo pagar por todos os crimes cometidos.
eu queria ter vivido entre os marginais da poesia, tomando cerveja com Leminski e rindo muito com Waly Salomão. Ter ouvido os Tropicalistas tocando violão pioneiramente, sentados em volta de uma mesa de centro num apê qualquer. Queria ter falado pra Rimbaud tirar da cabeça essa idéia de virar padre. e cantar pra Nieztche "ter fé e ver coragem no amor" quando as esperanças dele foram-se embora com Lou Andréas-Salomé. Queria ter visitado Oscar Wilde na prisão.
Eu queria realmente poder mostrar, demonstrar, fazer sentir a todos que já conheci e não conheci o quanto todos nós podemos amar uns aos outros; o quanto podemos ser úteis pra sociedade se deixarmos o ego de lado; o quanto o nosso planeta precisa de nós, não pra destruir, mas pra RE-construir. o quanto precisamos e necessitamos mais e mais de amor, humildade e compaixão a cada dia. o quanto o mundo está sedento de sentimentos nobres que não querem nada mais que dar e receber. RE-construir conceitos, libertar a mente, deixar fluir o positivo. Se libertar da escravidão mental que nos cerca a todo momento, nos impedindo de avançar espiritualmente.
eu queria ser outra pessoa, eu mesma, com todos prós e contras. e poses e apelos e defeitos e qualidades. e desejos e loucuras. e sair do sério, ser santa, louca, pomba-gira e padre. e mostrar pra todo munto o quanto la vie est belle.

Um comentário:

Iulo disse...

...queria ter trocado uma idéia com Dostoievski nos subsolos da russia...