_pois é. às vezes eu paro nessa repartição pública e converso com os processos imundos indagando o que será que houve. não sei bem a hora nem o local, só sei que em algum momento do tempo-espaço eu soltei a sua mão. não sei se foi na curva que separa seu cabelo seboso dos cílios ou se na tremedeira resultante daquelas anfetaminas; o fato é que agora me vejo sentada numa cadeira que é patrimônio público e tomando todas as tardes um café amargo e artificial com cheiro de burocracia.
_e eu me pergunto onde é que foram parar as pessoas loucas que queimam. os negros tocando jazz loucamente, as faixas amarelas da estrada e todas as viagens que sonhamos suspensas no tempo da vida. quando aconteceu? não sei. quando foi que a mina fútil que gosta de ler blogs de moda e de frequentar inferninhos tomou o lugar da mina que via as dores do mundo? a mina que enxergava os pedintes, que podia ver o céu azul além da janela do ônibus. aquela que gostava de esperar chegar a primavera para ler Bandini e suas crises existenciais. a que leu oliver twist na infância e prometeu a si mesma que mudaria o mundo.
_mesmo que me sinta a reencarnação de bukowski nas festas que ando frequentando, ainda não me enxergo de outra forma que não uma peruca ondulada montada numa ankle boot, afogando seus medos em copos de tequila e planejando me tornar tudo o que um dia eu queria ser. e no seguinte dia acordar de ressaca pensando em desentortar a vida, em vestir uma roupa decente e ser uma pessoa normal.
_em qual momento, meu caro amigo Sal, eu te abandonei? será que em Denver, ouvindo o barulho das fábricas tinindo? será que no México, na febre delirante no calor dos trópicos? quando foi, meu caro amigo, que eu deixei de acreditar naquilo que conversávamos por horas a fio? de projetos de vida alternativos, de ser rodeado de amor e de acreditar que o mundo é muito mais do que um sistema cheio de crueldades. em que momento da vida a gente esquece tudo aquilo que a gente criticamente pensa quando se é jovem?
vai ver é quando a poesia de viver na estrada evapora no calor do asfalto quente, ou quando a gente escuta a billie holliday tocando no rádio depois de passadas algumas décadas e sente aquela nostalgia do que nunca vivemos. no fundo são só segredos do asfalto, daquelas faixas desgastadas com o sol e a chuva, com as histórias de muitas caronas e crepúsculos que estarão por vir.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
ausência.
nada como a beleza da nossa individualidade. nada como estar sozinha no silêncio da casa. só. só com o caetano, com o cheiro do chão de madeira. momentos ínfimos. momentos únicos. o silêncio que reside no barulho da geladeira. um papo cabeça com a lagartixa que mora na sala. e o violãozinho no fundo.
porque aquele que consegue encontrar paz sozinho, encontra paz na sua alma. amacia os sentidos com sua própria personalidade. encontra em sua alma o refúgio das coisas boas da vida. calmo, sereno, reluzente.
estar só, mas com o mundo dentro de nós. com o amor que cabe nesse mundo, com todas as pessoas que dele fazem parte. mas só as boas. estar só, mas com todas as fotografias lindas e coloridas dos momentos bons e felizes. estar só com sorrisos. só com bons pensamentos. só, eu e o caetano, dançando valsa na sala.
uma serenata com os grilos. um sorriso pro Astolfo, o gambá. um beijo na cara da sociedade. beijos pra necessidade de estar o tempo todo rodeado de pessoas pra se encher delas. amo pessoas, mas quem precisa delas pra completar a si mesmo é vazio. e quando se é vazio, nem com todas as pessoas do mundo a gente está completo. beijos pra quem encontra em si a calma de ser o que é, sem precisar de complementações. beijos pra quem é único sem ser sozinho. beijos pra quem está só sem ser vazio. beijos, beijos e beijos. todos os beijos do mundo cabem em mim. todo o amor, toda alegria. um salve pro percevejo, porque hoje eu vou dormir sozinha. mas cheia de mim. esburrando de raizices. transbordando presença de mim mesma. acima de tudo feliz.
porque aquele que consegue encontrar paz sozinho, encontra paz na sua alma. amacia os sentidos com sua própria personalidade. encontra em sua alma o refúgio das coisas boas da vida. calmo, sereno, reluzente.estar só, mas com o mundo dentro de nós. com o amor que cabe nesse mundo, com todas as pessoas que dele fazem parte. mas só as boas. estar só, mas com todas as fotografias lindas e coloridas dos momentos bons e felizes. estar só com sorrisos. só com bons pensamentos. só, eu e o caetano, dançando valsa na sala.
uma serenata com os grilos. um sorriso pro Astolfo, o gambá. um beijo na cara da sociedade. beijos pra necessidade de estar o tempo todo rodeado de pessoas pra se encher delas. amo pessoas, mas quem precisa delas pra completar a si mesmo é vazio. e quando se é vazio, nem com todas as pessoas do mundo a gente está completo. beijos pra quem encontra em si a calma de ser o que é, sem precisar de complementações. beijos pra quem é único sem ser sozinho. beijos pra quem está só sem ser vazio. beijos, beijos e beijos. todos os beijos do mundo cabem em mim. todo o amor, toda alegria. um salve pro percevejo, porque hoje eu vou dormir sozinha. mas cheia de mim. esburrando de raizices. transbordando presença de mim mesma. acima de tudo feliz.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
os sonhadores.
o ônibus insiste em balançar quando passa nos buracos da estrada. é tudo escuro. lá fora, só as luzes das casas de periferia e os vagalumes, junto com aquele cheiro peculiar de enxofre que esses alagados guardam.
meu tênis rasgado insiste em me dizer que minha conta no banco é universitária e que nada que eu faça nos próximos 4 anos mudará essa realidade. as faixas amarelas, pintadas bem ao lado da estrada de chão, refletem a falta de amor que eu sinto por esse lugar. não é revolta, muito menos desprezo. é simplesmente indiferença.
o coração esquenta quando os fones saltam aos ouvidos. as unhas cor de vinho, as lembranças de viagem, os amores que já passaram - e até aqueles que ainda pulsam, todos eles correndo de mim pelo vidro da janela, me deixando sozinha nos campos do sul. foram-se embora os carros, os barulhos de buzina, os engarrafamentos, as ciclovias, a grande biblioteca da universidade, o samba no centro; foi-se embora o bondinho, as areias das praias que já fui, as alegres casinhas coloridas de Caraíva e de Buenos Aires. Foram embora as risadas na Lama e na Lapa. Acabou o festival.
Todas as coisas boas foram exiladas em um cassino, fechado pelo governo, nada mais entra aqui. A crueldade toma conta dessa cidade do já foi. Já foi capital, já foi grande, já foi de um tudo. Hoje, a decadência grita uma melodia excludente chamada progresso.
Mas eu tenho sonhos lindos. Eu tenho uma vida linda e sonhos, gigantescos, coloridos, saborosos. E todos eles voam como pássaros pelo mundo. Eles dançam comigo nesse maldito ônibus, eles me pegam pela mão quando o cansaço insiste em dizer que não há mais corpo pro trabalho. Eles me confortam e me fazem dormir quando o mesmo cansaço é tão intenso, que nem dormir mais se consegue.
Sonhos lindos de comprar uma casa e um carro e poder mantê-los. Sonhos de viajar e ver no Louvre todos os quadros que já vi na tv. Sonho de andar de gôndola, de ver os moinhos de vento, de fazer um picnic na champs elisées. De comer macarrão e ver o Coliseu. De conhecer São Francisco, Central Park e Brooklin. Eu tenho sonhos lindos e neles eu sou feliz. E eles me fazem enfrentar a dureza do dia a dia, as noitadas de garçonete, as aulas enfadonhas da academia, os projetos incansavelmente já falidos. Eles me fazem aturar as ruas sem asfalto, o peso do supermercado, a vala de esgoto a céu aberto. Eles são as veias de amor que correm no meu sangue alcoolico. São as únicas coisas que temos e nos fazem mais ricos.
meu tênis rasgado insiste em me dizer que minha conta no banco é universitária e que nada que eu faça nos próximos 4 anos mudará essa realidade. as faixas amarelas, pintadas bem ao lado da estrada de chão, refletem a falta de amor que eu sinto por esse lugar. não é revolta, muito menos desprezo. é simplesmente indiferença.
o coração esquenta quando os fones saltam aos ouvidos. as unhas cor de vinho, as lembranças de viagem, os amores que já passaram - e até aqueles que ainda pulsam, todos eles correndo de mim pelo vidro da janela, me deixando sozinha nos campos do sul. foram-se embora os carros, os barulhos de buzina, os engarrafamentos, as ciclovias, a grande biblioteca da universidade, o samba no centro; foi-se embora o bondinho, as areias das praias que já fui, as alegres casinhas coloridas de Caraíva e de Buenos Aires. Foram embora as risadas na Lama e na Lapa. Acabou o festival.
Todas as coisas boas foram exiladas em um cassino, fechado pelo governo, nada mais entra aqui. A crueldade toma conta dessa cidade do já foi. Já foi capital, já foi grande, já foi de um tudo. Hoje, a decadência grita uma melodia excludente chamada progresso.
Mas eu tenho sonhos lindos. Eu tenho uma vida linda e sonhos, gigantescos, coloridos, saborosos. E todos eles voam como pássaros pelo mundo. Eles dançam comigo nesse maldito ônibus, eles me pegam pela mão quando o cansaço insiste em dizer que não há mais corpo pro trabalho. Eles me confortam e me fazem dormir quando o mesmo cansaço é tão intenso, que nem dormir mais se consegue.
Sonhos lindos de comprar uma casa e um carro e poder mantê-los. Sonhos de viajar e ver no Louvre todos os quadros que já vi na tv. Sonho de andar de gôndola, de ver os moinhos de vento, de fazer um picnic na champs elisées. De comer macarrão e ver o Coliseu. De conhecer São Francisco, Central Park e Brooklin. Eu tenho sonhos lindos e neles eu sou feliz. E eles me fazem enfrentar a dureza do dia a dia, as noitadas de garçonete, as aulas enfadonhas da academia, os projetos incansavelmente já falidos. Eles me fazem aturar as ruas sem asfalto, o peso do supermercado, a vala de esgoto a céu aberto. Eles são as veias de amor que correm no meu sangue alcoolico. São as únicas coisas que temos e nos fazem mais ricos.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
acrobatic blood.
um dia conheci um cara, desses charmosos, carismáticos, bonitos... e ele fez a melhor definição sobre mim que alguém no mundo poderia fazer. "você é assim porque não sabe caber dentro de si mesma. você precisa extravasar você, senão você explode."
fiquei ali parada, olhando o rio de janeiro sendo plano de fundo daquela conversa - e me perguntando quem era aquela pessoa que conhecia tanto de mim. é incrível o quanto alguns segundos na nossa vida podem ser tão raros, mas tão raros, que serão lembrados até o fim.
não é atoa que me arrepio quando escuto "she`s thunderstorms". uma música que fala tanto da nossa alma só pode conversar com ela enquanto suspira sua melodia em decibéis.
fiquei ali parada, olhando o rio de janeiro sendo plano de fundo daquela conversa - e me perguntando quem era aquela pessoa que conhecia tanto de mim. é incrível o quanto alguns segundos na nossa vida podem ser tão raros, mas tão raros, que serão lembrados até o fim.
não é atoa que me arrepio quando escuto "she`s thunderstorms". uma música que fala tanto da nossa alma só pode conversar com ela enquanto suspira sua melodia em decibéis.
"she came and substituted
the peace and quiet
for acrobatic blood, flow, concertina
cheating heartbeat
rapid fire
she's thunderstorms
lying on her front
up against the wall
she's thunderstorms"
eu entendo desses loucos sobre os quais kerouac escrevia. entendo dessa estrada, o fogo cruzado das faixas amarelas pintadas no asfalto desgastante. vitória, rio, brasília, são paulo, aviões, porto alegre, estradas, estradas da vida. eu entendo do céu azul que se vê no horizonte dos alagados, ou do nublado do inverno, com baixíssimas temperaturas. entendo do clima tropical que aquece nossos corações. quando não caibo dentro de mim, eu vou viajar. vou buscar no vento a paz que quero em mim. "she's been loop the looping, around my mind..." vou buscar no mundo os amigos que me inspiram. Os Deans Moriatys que minha alma precisa.
quando a gente não cabe dentro de si, nenhum lugar é capaz de nos fazer caber.
terça-feira, 26 de junho de 2012
crônica de uma terça a noite.
hoje percebi que você já tem 4.2. nem parecia fazer tanto tempo assim que eu fui apresentada à parede amarela com uma linda marilyn sorrindo. sempre sexy, sempre sugestiva, sempre como você. incrivelmente inteligente, incrivelmente cheio de paixão e dor e poesia pela vida.
e como precisamos, todos nós, todos os seres vivos pensantes, como precisamos de aulas particulares de poesia. aulas que nos ensinem como é suspirar, aulas que nos mostrem a sutileza das palavras; e aulas que desvendem os mistérios do entendimento, que nos façam enxergar a diferença entre o quanto podemos ser rudes e o quanto podemos ser doces.
que seja doce. e que assim seja o cheiro do meu perfume adocicado misturado ao seu perfume âmbar enquanto nossos pés insistem em se entrelaçar na cama. enquanto eu conto os livros da estante, me recordo de como acho engraçado você mentir pra si mesmo sobre o quanto gosta de mim. é engraçado porque quando seus dedos se entrelaçam nos meus, numa busca sua por me ter, você desfaz todas as mentiras que sua língua invocou nesta terra.
você me ensinou coisas lindas. como amar apaixonadamente uma profissão. como se maravilhar com as descobertas que fazemos no dia a dia. como podemos encontrar sentimentos lindos e livres em coisas pequeníssimas. como se revoltar contra essa sociedade de falsos moralistas. como o amor pode nos mover em busca daquilo que realmente acreditamos. como o conhecimento pode ser algo prazeroso, poderosamente, diferente do que aprendemos por toda a vida nas escolas.
escolas, escolas da vida. será que a vida vai me ensinar tudo o que aprendi contigo, num lapso de espaço-tempo de línguas falando outra língua? existem coisas que são como tatuagem: as fazemos por motivos únicos; buscando propósitos, uma auto-afirmação. as vezes buscando revoluções internas, buscando chocar. e aí nos vemos eternos, radiantes, carregando consigo suas marcas por onde quer que estejamos.
você tinha 39. mas eu ainda posso escutar o arnaldo cantando.eu ainda posso lembrar da tatuagem e de como ríamos conversando sobre o leminski. sei que ainda hoje acreditamos no que o bigodudo dizia: "distraídos venceremos".
e como precisamos, todos nós, todos os seres vivos pensantes, como precisamos de aulas particulares de poesia. aulas que nos ensinem como é suspirar, aulas que nos mostrem a sutileza das palavras; e aulas que desvendem os mistérios do entendimento, que nos façam enxergar a diferença entre o quanto podemos ser rudes e o quanto podemos ser doces.
que seja doce. e que assim seja o cheiro do meu perfume adocicado misturado ao seu perfume âmbar enquanto nossos pés insistem em se entrelaçar na cama. enquanto eu conto os livros da estante, me recordo de como acho engraçado você mentir pra si mesmo sobre o quanto gosta de mim. é engraçado porque quando seus dedos se entrelaçam nos meus, numa busca sua por me ter, você desfaz todas as mentiras que sua língua invocou nesta terra.
você me ensinou coisas lindas. como amar apaixonadamente uma profissão. como se maravilhar com as descobertas que fazemos no dia a dia. como podemos encontrar sentimentos lindos e livres em coisas pequeníssimas. como se revoltar contra essa sociedade de falsos moralistas. como o amor pode nos mover em busca daquilo que realmente acreditamos. como o conhecimento pode ser algo prazeroso, poderosamente, diferente do que aprendemos por toda a vida nas escolas.
escolas, escolas da vida. será que a vida vai me ensinar tudo o que aprendi contigo, num lapso de espaço-tempo de línguas falando outra língua? existem coisas que são como tatuagem: as fazemos por motivos únicos; buscando propósitos, uma auto-afirmação. as vezes buscando revoluções internas, buscando chocar. e aí nos vemos eternos, radiantes, carregando consigo suas marcas por onde quer que estejamos.
você tinha 39. mas eu ainda posso escutar o arnaldo cantando.eu ainda posso lembrar da tatuagem e de como ríamos conversando sobre o leminski. sei que ainda hoje acreditamos no que o bigodudo dizia: "distraídos venceremos".
domingo, 13 de maio de 2012
hard times help me see - shadow days.
ontem acabei meu seriado favorito. me senti frustrada porque ele simplesmente não acabou com o capítulo final. na verdade, foi cancelado, o que explica que muitas histórias ficaram por terminar. isso me fez refletir sobre as nossas histórias. essas que vivemos no dia a dia, no meio de canecas de café e de sonhos que são interrompidos. me dei conta que muitas vezes as coisas não terminam, são interrompidas. porque nem sempre estamos prontos de corpo e alma para o capítulo final.
afinal o que é um capítulo final? a mocinha, no final, ficou com o mocinho. mas eles foram morar juntos e têm problemas de relacionamento, como quem ganha mais ou quem vai cuidar do cachorro. o milionário deixou a cidade e foi morar no interior, enquanto sua companheira largou a carreira de cantora para ser garçonete de um bar - e estão felizes. no dia do casamento, um raio caiu no noivo. ele perdeu a memória e a noiva acabou se apaixonando por outro. e continuou com o outro quando ele lembrou de tudo. o andarilho se apaixonou, mas a sua paixão já tinha dono e por isso ele foi buscar o mundo. a garota da cidade se apaixonou pelo cara do interior. e foi morar lá com ele. são histórias de vidas normais, sem capítulos finais. são vidas que se entrelaçam, que lançam suas histórias no universo. mas que não pedem um final feliz. só pedem a oportunidade de continuar acontecendo, a chance de poder acontecer.
é engraçado quando percebemos que a vida pode imitar os filmes, ou vice versa, mas que ao contrário dos filmes, o "felizes para sempre" é uma coisa bem abstrata quando se trata do mundo real.
o amor é algo singular e sutil. acontece quando a chuva cai, quando aquele café que alguém preparou esquenta nosso coração. é incrivelmente sutil como um olhar, ou como quando alguém chora de um lado e alguém só escuta do outro. o amor é silêncio. ele acontece nas entrelinhas de um relacionamento. ele é a lareira acesa no inverno, é apoio, mas pode ser só um sorriso.
e sabe o que é melhor? o amor não precisa de fórmula. ele não precisa ser "feliz para sempre". porque convenhamos, ser "feliz para sempre" é um saco ! o emocionante da nossa jornada nesta vida é notar nas gotas da chuva o quanto o amor que possuímos escorre pelos dedos, quando a gente não espera. ele não vem bordado de paetês e luzes de neon. ele consiste simplesmente em continuar coexistindo com todas as adversidades da vida.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
iluminações de um dia de chuva.
enfadonhas meninas de laços róseos conversam futilidades enquanto seu batom vermelho-sangue circula pela noite, fazendo seus saltos dedilharem uma melodia no asfalto. você mergulha na escuridão das luzes neon, em busca de um amor asfixiante, de um esmalte mais brilhante, de uma bebida mais forte, de uma droga que entorpeça.
de que serão feitas essas mulheres do próximo século? exibem suas cabeças pensantes com seus negros fios de cabelo como um estereótipo à tiracolo; exibem seus cílios cumpridos e marcados pelo rímel, demonstrando em seus decotes toda a sabedoria que não foi perdida com o blondor ou com sua vaidade. elas ouvem música boa, de letras tão profundas quanto um apple martini. e leem livros de tolstoi. elas assistem filmes do fellini. amam os do almodóvar; choram nos do woody allen. elas amam o bigode do leminski. e aquele cigarro alonga sua essência de cereja por onde quer que passem. a fumaça que dele se desprende só demonstra uma coisa: o reflexo de sua alma, que de tão carregada de sábias opiniões flutua sobre os cristais de gelo do pensamento alheio.
mas você é fogo, mulher moderna. se uma cápsula do tempo te levasse ao passado, você inventaria a calça e botaria fogo nas igrejas e nos palanques. queimando por dentro, sabe onde ir, o que fazer, e até que ponto deve ficar. e quando chega a hora, some como um gato negro pelas sombras dos becos e ruelas da cidade grande que é o seu coração. seu delineador é uma serenata solitária protagonizada pelos seus olhos de gato. eles cantam a noite e o sonho, aquele que você conhece se afogar numa dose de burdock.
e isso é você, mulher-brilhante. um conjunto de beleza alva exposta às vestimentas negras, o contraste entre o branco e o preto, desenhando seus lábios de rouge no céu eterno da cidade. você é fogo que arde na madrugada, gritando no silêncio de um gole a mais.
sábado, 24 de março de 2012
Vicky Cristina Barcelona
É Alice, depois de anos você sentiu novamente que ninguém no mundo podia entender o que naquele momento você sentia. Sentiu que era único, que era intenso, que queimava. E brilhava dentro de ti, como qualquer coisa que apaixonantemente brilha no meio da noite, da infindável escuridão. E de volta está você, Alice. Com todos os olhares questionadores que só você sabe dar, com todas as promessas nos lábios que só você pode conter. E ainda me diz que amou o filme, que o cinema é mágico, porque ele mostra todas as coisas que gostaríamos de realizar um dia, mas que nunca realizamos por não termos perfil de protagonista. Ah, você sabe Alice. Todo esse jeito europeu, as ruas de Barcelona, a coragem de não seguir padões americanizados e capitalistas, o jeito Scarlett Johansson de ser, o carro vermelho antigo do pintor-músico sedutor. Isso tudo arrepia, e dá medo. E quando isso acontece você simplesmente acha lindo, e se tranca no quarto com seu um milhão de perguntas e algumas palavras no papel, como se quisesse responder a cruel questão que resolveria o problema do universo, a teoria do caos, da relatividade, e de todos os sentimentos luminescentes que podemos sentir nesse vão tão profundo que somos nós mesmos.
Já não importa mais se é Porto Alegre, Vitória, Rio de Janeiro, Brasília. Porque dentro de ti há todos os lugares, Alice, até mesmo Barcelona.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
gato negro.
a arte de terminar uma fase é algo que se deve saber degustar. como aquele bom vinho, que a gente toma com alguém especial, ouvindo uma música leve, sentados numa sala com almofadas e uma varanda com a vista aconchegante ao fundo.
mas degustar a vida é para poucos, Alice. e disso você também já sabe!
terça-feira, 6 de setembro de 2011
pra onde tenha sol... é pra lá que eu vou.

num dia desses eu vesti o meu pulôver, caminhei até a cozinha escura e destranquei a porta de jacarandá. caminhei pelas pedras nuas em torno da piscina, puxei aquela cadeira e me sentei de fronte ao sol. abri o polôver e deixei o sol penetrar cada poro da minha pele branca. recostei, joguei a cabeça pra trás e fechei os olhos.
enquanto o sol me invadia a mente, me imaginei na praia. eu podia sentir a brisa e o mar de ipanema, azul celeste, quebrando ao meus pés, com aquelas ondas de pontas brancas e espumantes. via as ilhas cagarras ao fundo do cenário, com gaivotas voando ao longe. olhei as pessoas na areia, aquela areia sempre cheia de gente, independentemente da época do ano. observei cada gesto, cada sorriso, cada pitada de felicidade. aquelas pessoas do mundo todo, aquela gente brasileira, com sua pele exposta ao léu, com seu remeleixo estampado na cara, puro swing.
os prédios do outro lado da rua continuavam com um ar cosmopolita. e os cafés em seu entorno, tão chics, tão vitorianos, esbanjavam todo o charme do mundo. os coqueiros balançavam na lenta velocidade do vento, as pessoas caminhavam pra lá e pra cá, no meio dos carros, da ciclovia, no calçadão, nos kioskes, atravessando a avenida. e ali estava eu e meu corpo, se bronzeando naquele sol escaldante, sentindo o sol que aquece a vida, que aquece nossos sonhos, nossos desejos; sentindo o sol que está longe, sempre dentro de todos nós, esperando pra nascer.
Alice mora numa rua de pedras fria no interior do Rio Grande do Sul.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
sonho.
terça-feira, 26 de julho de 2011
mistério do planeta.

os poetas foram jogados aos cadafalsos. as mais belas melodias, jogadas ao vento. tudo que um dia foi, tudo o que é: nada jamais será. enquanto o vento paira sobre os guetos arruinados de um velho amor cheio de rugas e cicatrizes, eu ouço você cantar no alto de uma varanda do sexto andar.
é a doce brisa que insiste em se entranhar no meu cangote suado, o mesmo que você insiste em beijar deliberadamente. eu fecho os olhos e sou toda luz, toda música, toda fronteira. são apenas milhões de pequenas-coloridas luzes, doces venenos que se escondem no marrom dos seus olhos.
eu e essa prosa prosaica que esconde a minha vontade de te levar aos lugares mais inusitados e boêmios do centro da cidade. vai ver que é porque você tem esse ar urbano, ao mesmo tempo que nasceu na Bahia, morou no Pará ou na Nova Zelândia. Vai ver é o seu perfume meio âmbar que me embebedou. Vai ver, vai saber: no fundo é só mais um mistério desses da vida, dessas loucuras que não sabemos de onde vieram ou pra onde vão nos levar.
terça-feira, 5 de julho de 2011
desconsertamento.
dai-me Deus, uma dose de esquecimento
um prozac pro o sentimento
um conhaque que cure a dor.
um esmalte pra cobrir as garras
meia arrastão pra esconder as caras
maquiagem que esconda as olheiras
um bom papo des-farçando bobeiras
na frente do espelho.
dai-me Deus
amigas pra mascarar
quando aquele olhar eu buscar;
salto alto pra poder pisar
nos corações alheios
que ousam o caminho cruzar.
porque nessa noite
a noite é minha
a noite é só
eu e a lua
e o meu conhaque
e o meu prozac
e a dose de esquecimento
e o desalinho desalento
e a lembrança do esquecimento
da noite que era dele.
um poema do esquecimento
pra paginar o momento
pra se eternizar
desconsertamento.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
O sorriso da Monalisa.
Se seremos alegres ou tristes, não sei. Não poderemos saber disso, enquanto nascer o sol a cada novo dia. Não poderemos descobrir, mesmo debruçados sobre a janela chamada presente, tentando enxergar sem óculos o quintal do futuro lá fora.
O que sei é que há coisas que vão nos machucam pra sempre. Que nunca se vão, nunca nos deixam. Estão ali, guardadas, só para fazer doer aquela ferida que achávamos já ter curado. Ai de nós. Elas se pronunciam nos dias em que o cinza toma conta do céu. Nos dias de pôr-do-sol alaranjado e nos dias de ventania. Nos machucam e nos tornam duros, firmes, indolores, quando não mais somos capazes de sentir.
Mas o que sei, debaixo desse céu e em cima desse chão que piso, o que sei, é aquilo que todos deveriam saber: enquanto toca o Le Banquet, do Yann Tiersen, eu danço. Por dentro. Dançamos. Dançastes. Ou pelo menos deveria dançar. E sempre vai haver uma dança, proporcional a todos os espinhos de todas as rosas desse mundo.
sábado, 9 de abril de 2011
in-consciente.

Escrevo meu livro enquanto a Janis chora seu blues. Lasanha com mousse de morango nunca foi tão bom como quando compartilhados com amigos à mesa. A lua está alta, o vinho em temperatura ideal. E enquanto o vento urge no estuário da Lagoa dos Patos, ele me encontra, me gela os desejos e me deixa mais saudosa do que não vivi.
A Janis e seu blues tem sido meus melhores amigos nos últimos tempos. Até mesmo quando Foucault tenta se introduzir nos meus pensamentos, me vigiando e punindo. A loucura nos beija os lábios, nos acarinha o rosto, mexe no meu cabelo. Ela nunca esteve tão real.
E viver nunca pareceu tão fácil. E essa Alice, feita de carne e alma, osso e personalidade, vai subir no salto e descobrir a noite - quando não mais a noite já existe, nos seus sonhos mais profundos.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Carnivale.
Não tenha medo do seu futuro destemido, pequena grande Alice. Ah, esse futuro que te dá rasteiras e sempre te estatela no chão. Não tenha medo das pessoas que não têm sonhos Alice. Pois de tantos sonhos não possuírem, tentam tornar pesadelo os sonhos dos demais. Ah Alice, não tenha medo do carnaval. Esse carnaval de que é feita a sua vida, cheio de serpentinas coloridas (não das laminadas!), cheio de confete e cerveja adoidado. Cheio de fantasias felizes, marchinhas tocando ao ritmo do Los Hermanos. Tão bonito é ser Alice. Poder brincar com Humpty-Dumpty aos 20, poder comer um cogumelo pra crescer e regredir quando bem temos vontade. Mas quando as portas ficam pequenas pra todo o seu tamanho, Alice, não temas. Há sempre mais cogumelo, mais sonhos, mais carnaval, mais serpentinas coloridas, confete e cerveja. Sempre há fantasias felizes e marchinhas - e sempra haverá Los Hermanos.
"ter fé e ver coragem no amor..."
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
à segunda vista.
no meio da rua cheia de gente ela disse que achava lindo o menino do outro lado, com cara de argentino safado. ela tomou um gole da caipirinha com bastante açúcar, encarou-o, tragou o cigarro e desviou os olhos com um jeito de que ele no mundo não importava tanto.
entraram. e enquanto ela dançava, ele se aproximou e beijou sua amiga.
foi no banheiro, retocou o batom e pensou naquele natal infame como se fosse o pior de sua vida, num Pub sujo nos undergrounds da cidade; e ainda haviam cinco cervejas no balde a serem liquidadas. é o que tinha pra hoje.
afastou-se. foi até a mesa mais longe, do canto mais longe, o mais longe possível da luz. sentou. outro cigarro acendeu, pensando que havia odiado o que papai noel trouxe nesse natal: um saco, dos grandes e bem vazios.
daí veio um cara com o sorriso bonito e disse umas palavras baratas. ignorando, pensou "que saco". na penumbra não dava pra ver muita coisa. só deu pra ver quando ela se apaixonou à segunda vista e saiu de mãos dadas de lá com o moço do sorriso. azar ou sorte? só a vida vai dizer.
entraram. e enquanto ela dançava, ele se aproximou e beijou sua amiga.
foi no banheiro, retocou o batom e pensou naquele natal infame como se fosse o pior de sua vida, num Pub sujo nos undergrounds da cidade; e ainda haviam cinco cervejas no balde a serem liquidadas. é o que tinha pra hoje.
afastou-se. foi até a mesa mais longe, do canto mais longe, o mais longe possível da luz. sentou. outro cigarro acendeu, pensando que havia odiado o que papai noel trouxe nesse natal: um saco, dos grandes e bem vazios.
daí veio um cara com o sorriso bonito e disse umas palavras baratas. ignorando, pensou "que saco". na penumbra não dava pra ver muita coisa. só deu pra ver quando ela se apaixonou à segunda vista e saiu de mãos dadas de lá com o moço do sorriso. azar ou sorte? só a vida vai dizer.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
sábado, 5 de fevereiro de 2011
ausência.
Você pode ter todas as palavras do mundo nas mãos e no pensamento, mas elas de nada adiantam quando se perde o chão. Elas simplesmente se foram, e eu fiquei ali, olhando pra baixo e procurando um fundo debaixo do meu all star que não mais existia.
Estranha sensação essa de se ter tudo e de uma hora pra outra não ter mais nada. Não materialmente falando, mas subjetivamente, só o que me restam são essas palavras que, agora, nada servem.
"Essa vida é uma viagem
pena eu estar só de passagem."
Leminski, P.
Estranha sensação essa de se ter tudo e de uma hora pra outra não ter mais nada. Não materialmente falando, mas subjetivamente, só o que me restam são essas palavras que, agora, nada servem.
"Essa vida é uma viagem
pena eu estar só de passagem."
Leminski, P.
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