terça-feira, 5 de julho de 2011

desconsertamento.


dai-me Deus, uma dose de esquecimento
um prozac pro o sentimento
um conhaque que cure a dor.
um esmalte pra cobrir as garras
meia arrastão pra esconder as caras
maquiagem que esconda as olheiras
um bom papo des-farçando bobeiras
na frente do espelho.




dai-me Deus
amigas pra mascarar
quando aquele olhar eu buscar;
salto alto pra poder pisar
nos corações alheios
que ousam o caminho cruzar.
porque nessa noite
a noite é minha
a noite é só
eu e a lua
e o meu conhaque
e o meu prozac
e a dose de esquecimento
e o desalinho desalento
e a lembrança do esquecimento
da noite que era dele.

um poema do esquecimento
pra paginar o momento
pra se eternizar
desconsertamento.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O sorriso da Monalisa.


Se seremos alegres ou tristes, não sei. Não poderemos saber disso, enquanto nascer o sol a cada novo dia. Não poderemos descobrir, mesmo debruçados sobre a janela chamada presente, tentando enxergar sem óculos o quintal do futuro lá fora.
O que sei é que há coisas que vão nos machucam pra sempre. Que nunca se vão, nunca nos deixam. Estão ali, guardadas, só para fazer doer aquela ferida que achávamos já ter curado. Ai de nós. Elas se pronunciam nos dias em que o cinza toma conta do céu. Nos dias de pôr-do-sol alaranjado e nos dias de ventania. Nos machucam e nos tornam duros, firmes, indolores, quando não mais somos capazes de sentir.
Mas o que sei, debaixo desse céu e em cima desse chão que piso, o que sei, é aquilo que todos deveriam saber: enquanto toca o Le Banquet, do Yann Tiersen, eu danço. Por dentro. Dançamos. Dançastes. Ou pelo menos deveria dançar. E sempre vai haver uma dança, proporcional a todos os espinhos de todas as rosas desse mundo.

sábado, 9 de abril de 2011

in-consciente.


Escrevo meu livro enquanto a Janis chora seu blues. Lasanha com mousse de morango nunca foi tão bom como quando compartilhados com amigos à mesa. A lua está alta, o vinho em temperatura ideal. E enquanto o vento urge no estuário da Lagoa dos Patos, ele me encontra, me gela os desejos e me deixa mais saudosa do que não vivi.
A Janis e seu blues tem sido meus melhores amigos nos últimos tempos. Até mesmo quando Foucault tenta se introduzir nos meus pensamentos, me vigiando e punindo. A loucura nos beija os lábios, nos acarinha o rosto, mexe no meu cabelo. Ela nunca esteve tão real.
E viver nunca pareceu tão fácil. E essa Alice, feita de carne e alma, osso e personalidade, vai subir no salto e descobrir a noite - quando não mais a noite já existe, nos seus sonhos mais profundos.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Carnivale.


Não tenha medo do seu futuro destemido, pequena grande Alice. Ah, esse futuro que te dá rasteiras e sempre te estatela no chão. Não tenha medo das pessoas que não têm sonhos Alice. Pois de tantos sonhos não possuírem, tentam tornar pesadelo os sonhos dos demais. Ah Alice, não tenha medo do carnaval. Esse carnaval de que é feita a sua vida, cheio de serpentinas coloridas (não das laminadas!), cheio de confete e cerveja adoidado. Cheio de fantasias felizes, marchinhas tocando ao ritmo do Los Hermanos. Tão bonito é ser Alice. Poder brincar com Humpty-Dumpty aos 20, poder comer um cogumelo pra crescer e regredir quando bem temos vontade. Mas quando as portas ficam pequenas pra todo o seu tamanho, Alice, não temas. Há sempre mais cogumelo, mais sonhos, mais carnaval, mais serpentinas coloridas, confete e cerveja. Sempre há fantasias felizes e marchinhas - e sempra haverá Los Hermanos.






"ter fé e ver coragem no amor..."

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

à segunda vista.

no meio da rua cheia de gente ela disse que achava lindo o menino do outro lado, com cara de argentino safado. ela tomou um gole da caipirinha com bastante açúcar, encarou-o, tragou o cigarro e desviou os olhos com um jeito de que ele no mundo não importava tanto.
entraram. e enquanto ela dançava, ele se aproximou e beijou sua amiga.
foi no banheiro, retocou o batom e pensou naquele natal infame como se fosse o pior de sua vida, num Pub sujo nos undergrounds da cidade; e ainda haviam cinco cervejas no balde a serem liquidadas. é o que tinha pra hoje.
afastou-se. foi até a mesa mais longe, do canto mais longe, o mais longe possível da luz. sentou. outro cigarro acendeu, pensando que havia odiado o que papai noel trouxe nesse natal: um saco, dos grandes e bem vazios.
daí veio um cara com o sorriso bonito e disse umas palavras baratas. ignorando, pensou "que saco". na penumbra não dava pra ver muita coisa. só deu pra ver quando ela se apaixonou à segunda vista e saiu de mãos dadas de lá com o moço do sorriso. azar ou sorte? só a vida vai dizer.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

infância.


Era uma vez uma menina pequenininha. Aí um dia ela cresceu e quis abraçar o mundo. Fim.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

ausência.

Você pode ter todas as palavras do mundo nas mãos e no pensamento, mas elas de nada adiantam quando se perde o chão. Elas simplesmente se foram, e eu fiquei ali, olhando pra baixo e procurando um fundo debaixo do meu all star que não mais existia.
Estranha sensação essa de se ter tudo e de uma hora pra outra não ter mais nada. Não materialmente falando, mas subjetivamente, só o que me restam são essas palavras que, agora, nada servem.

"Essa vida é uma viagem
pena eu estar só de passagem."

Leminski, P.

a-provação
























Alice vai morar no Rio Grande do Sul. Alice passou no vestibular =)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Alice segundo as erradas escrituras.

Alice, bem aventurada Alice. Marginal nas entrelinhas, máscara de boazinha. Gata parda quando anoitece, frequentadora dos becos, ruelas e latas de lixo.
Ah Alice, você e essa sua desenfreada vida! Que de tanto esquecer os freios quebra a cara no chão. E que de tanto quebrar a cara se delicia. Que será de você Alice, quando não mais brilharem as luzes estroboscópicas em cima de sua poesia? Sem dúvida vai se perder em alguma rua de paralelepípedos, dentro de algum Troller amarelo, numa nuvem de algodão doce, no planalto central, com os meninos do centro, no pagode do Porto, no cemuni da UFES.
Alice de modos e jeitos, Alice de fotos e beijos. A poderosa Alice, não mais loira, não mais de vestidinho azul. Alice que gosta da Marilyn, dos Beatles, de Kerouac, Leminski, Waldo Motta, Chacal, Graciliano e Clarice. Alice que acha que a vida é bela. Alice que quis ser hippie. Alice que quis ser rock. Alice que finalmente não escreveu aquela carta de amor. Mas com um leque de opções incontáveis pela frente, continua sendo Alice. Tudo que neon e cor de framboesa for, tudo que é cereja e love spell. Tudo o que nos menores frascos conserva as melhores essências. Tudo o que se pode desejar, tudo que se é.
Tudo o que você quer é seu, Alice. E disso, você sabe.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

às onze.

Quando eu era pequena e passeava pelos canteiros, gostava muito de uma florzinha super-colorida chamada Onze Horas. Ela se abre sempre às onze, por isso o nome. Mas o que mais me chamava atenção era a cor: parecia de mentira, de tão forte fúcsia que era. O tempo foi passando e eu nunca mais vi aquele colorido. Mudei do Jardim de Infância pro Ensino Fundamental, do Ensino Fundamental pro Ensino Médio, do Médio para o cursinho.
Hoje depois de tanto tempo, me lembrei do colorido daquela flor. E do quanto ele me faz falta às vezes.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

singular luz difusa.





















E sê plural como o universo. Nas ruas, nas calçadas, nos bares e lojas, enquanto vivendo ou depreciando. Sê plural com as coisas simples, que de tão simples singulares são. Sê a mudança que se quer ver no mundo. Que de tanto mudar, normal se torna. E que de tão normal é, passa a diferente ser. Sê plural no meio de muitos, e singular dentro de plural ser. Sê amor no plural, multiplicativamente. Até singular se tornar.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Espera.

Enquanto a frente fria chega e o Amarante canta no rádio eu busco a consistência nos seus atos inconstantes, na inconsistência do amor. Acho que sou capaz de pensar o mundo na sua ausência, mas que também aprendo sobre a história da vida e dos povos na sua presença. Tudo aquilo sobre os Hapa Nui e os Incas, as histórias perdidas da América Latina e dos outros países, eu sei de todas elas. Mas acho que a única história que quero trilhar é a minha e a sua, a história de como cabemos tão bem numa cama pequena e com os pés roçando.
Entendo sua implicância quando eu te faço usar as roupas que eu gosto e suas birras quando eu te mando cortar o cabelo do jeito que eu quero. Mas é que desde então você respira para mim, e não existe mais um outro nicho ecológico que combine tão bem com a sua natureza quanto esse.
O fato é que amanhã você vai chegar com flores e suas promessas de tempos bons, e eu não tenho nada mais a fazer a não ser te acariciar os cabelos e te dizer que vai ficar tudo bem. Que o governo não vai sofrer nenhum golpe de Estado, que a bolsa de valores não vai quebrar e que os barris do petróleo continuam abaixando de preço mas a gasolina pra nós não. E te dizer que apesar da conspiração do Universo, da CIA e da Gestapo, estamos juntos porque nos amamos e somos teimosos como duas mulas, sem intenção ou possibilidades de descendentes férteis, sem entender qual nossa função nesse mundo de tantos anos - com exceção de viver esse amor.

domingo, 7 de novembro de 2010

pergunte ao pó, Bandini.

"...Bandini, caminhando sozinho, não alto, mas sólido, orgulhoso dos seus músculos, apertando os punhos para gratificar-se no duro deleite dos seus bíceps, o absurdamente destemido Bandini, sem medo de nada a não ser do desconhecido num mundo de misteriosa maravilha. Os mortos ressussitaram? Os livros dizem não, a noite grita sim!..."

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

vejo flores em você.

_a chuva cai impreterivelmente em todos os lugares. nada é mais importante nesse momento do que olhar os pingos escorrendo pelo vidro embaçado: o meu calor desgela as coisas frias.
calor que vem desse verão que chega me suando o gargalo. que vem das flores do jambeiro que mora em frente à minha janela. calor que vem de um sorriso, de um olhar, de um ato, de afeto.
_tanto calor cabe nas coisas pequenas, quando sorrimos com os olhos e dizemos "sim" com o coração.
brasileiros, vivos de expressão, fundidos no sol escaldante, acalorados em seus ardores e amores, em sua vida e em sua poesia: parabéns por sobreviverem ao verão, tendo dentro de si chuvas e alagamentos, terremotos e tormentos.
_ pois o frio nada mais é do que a ausência do calor.

sábado, 30 de outubro de 2010

de livros e paradoxos.

_ouvir a janis joplin vibrando alto e os pingos caindo do chuveiro e escorrendo pelo meu rosto cansado dá sensação de ventura. e não me importa mais se todos estão em casa ou se fico imersa nesse armazém de solidão. fico aqui apenas, remoendo os prós e os contras das nossas brigas mal feitas por motivos mal forjados, causadas simplesmente por um ciúme doentio daquilo que não vivemos juntos e pela ânsia sedenta por aquilo que ainda viveremos.
_o lume das estrelas se confunde com o brilho dos postes e eu queria você me dizendo o quanto quer ficar do meu lado neste momento agora que passou. e em todos os outros que virão. só nós sabemos o que se passa dentro desses nossos corações profundos de madrugada e caos, como vitrolas empoeiradas de histórias e emoções dos outros. livros impregnados de dedicatórias doces e flores secas, que são a prova de que nosso amor um dia existiu nesse universo enorme de matéria e sentimento.
_só nós sabemos desse amor do nosso jeito, com o nosso cheiro e gosto, um amor que machuca e que alegra. um paradoxo incontestável de que somos humanos, e que de tão humanos passamos a ser tolos de esperança pelo que há de vir. e aquelas pessoas da fotografia estão sorrindo pra mim, como marionetes de um passado feliz que está presente e se projeta por muitos anos que ainda hão de vir. te sinto, incondicionalmente.

sábado, 2 de outubro de 2010

o velho e o moço.

















"vou levando assim, que o acaso é amigo do meu coração... quando fala comigo"

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

cegueira.

viver não é mais questão de princípios. não é mais questão de quantos anos se tem, num mundo que o novo fala mais alto que a experiência. não é mais questão de valores, já que tê-los se tornou algo careta. viver se tornou acordar correndo e não tomar um café da manhã decente. se tornou dirigir estressado sem nem sequer olhar o céu. se tornou entrar sem dizer "bom dia", sair sem dizer "obrigada", viver se tornou fingir que não vimos para não ter que cumprimentar.
me desculpe você, que vem ao País às exatas 22:36 da noite para ler um clichê falando sobre a vida e seus deletérios. mas é que me canso de me tornar tanto desse jeito que esse povo se torna. Parece que todo mundo se acostumou a se tornar preguiçoso, a se tornar irritado, a se tornar uma pessoa amarga com a vida, a se tornar rude e agressivo.
Será que ninguém pode se tornar bom? humilde? generoso? solidário? altruísta?
tá todo mundo cego.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

look for the picture.
















um céu lá em cima
e o caos aqui embaixo.





to de volta!

domingo, 22 de agosto de 2010

ensaio sobre a crônica.
















sentada no Divã a rapariga cansou de esperar. Cruzou as mãos uma dentro da outra e passou a rodar os polegares para ver o tempo passar. A névoa branca lá fora na janela era o mais perfeito ambiente pro seu estado de espírito: cansaço, eterno. fitou as mal feitas unhas cor de rosa; já não significavam a empolgação da semana anterior. suas botas de grife mais pareciam uns calçados velhos adquiridos num mercadinho qualquer da cidade. em vão, chegou a conclusão de que quanto mais consumia, mais se sentia sedenta de algo que não conseguia descobrir o que era.
quanto mais se deprimia, mais pensava na saudade dos anos que não voltam mais. mais queria os amigos perto, mais ansiava a conquista que nunca vinha.
o mundo não era mesmo como os filmes latino americanos que, mesmo levando uma vida miserável, as pessoas eram felizes no final. haviam por aí pelos montes pessoas tão infelizes quanto ela. a consciência disso a torturava a garganta. engoliu seco quando a terapeuta enfim se sentou a sua frente com o óculos de armação preta. ela piscou deliberadamente. iria enfrentar agora todos os medos que reprimiam sua alma.
ao término da sessão, desceu as escadas do consultório e deu na rua. apertou mais o cachecol sobre o pescoço e caminhou até o ponto de ônibus. avisou a linha 166, deu o sinal e aguardou. o motorista abriu as portas mas a menina não se moveu. ficou ali, parada, como se houvesse congelado. o motorista fechou as portas do transporte e engrenou a marcha. sem pensar duas vezes, a menina andou e logo estava na frente do automóvel em alta velocidade. em rápidos instantes, encontrava o seu destino final: sua ascensão e glória no chão da avenida fria e trepidante.

domingo, 15 de agosto de 2010

Route 66.
















a neblina se espalhava tanto pela cidade que as luzes através do vidro eram apenas pontos arredondados e foscos brilhando ora dourado, ora prateado. uma velha música folk tocava no rádio, fiquei nostálgica.
avistei mulheres dançando em pequenos pedestais molhados de sereno, homens bebendo whisky com suas botas velhas. e lá fora aquele cheiro de poeira e deserto estava tão suspenso no ar que já não se podia distinguir o que era ar e o que era poeira. o letreiro luminoso brilhava neon com aquelas palavras baratas de beira de estrada. atraindo caminhoneiros, viajantes e desbravadores de seus próprios destinos.
o músico dedilhava a viola com sentimento, buscando nela talvez a resposta para todas as suas perguntas. as notas musicais iam machucando o coração daqueles homens, cansados da vida na estrada; ia deixando as mulheres, cansadas da vida, com saudade do que não viveram.
lá fora, além da música, ouviu-se um barulho de Harley Davidson. ela deu um último suspiro e silenciou. a porta dupla se abriu, e dentro daquele bar na beira da estrada no deserto, lá onde as fronteiras começam a chegar perto das lindas ameríndias, Billy Jonh chegou com seu chapéu antigo, seu cabelo grisalho e seus olhos faiscando, cheios de mundos a desbravar. podia não ter um lugar só, mas era de todos os lugares.