saindo da loja, animada, com a lingerie de cerejinhas desenhadas na sacola. Se imaginou com a franja caída na testa, vestida com elas, pronta para ser amada. Breve doce sonho.Caminhou mais algumas ruas pela avenida movimentada e entrou no banco.Luz trepidante, cheiro de ar-condicionado e papel picado. Ela se aproximou do caixa eletrônico e avistou um envelope cor acre, um pouco volumoso. O tomou nas mãos e observou quem poderia ter esquecido aquilo ali, mas só estavam ela e o segurança da porta giratória.
Com o cuidado de quem pega uma coisa que vai quebrar, observou curiosamente o envelope, imaginando o teor de seu conteúdo. Abriu-o por fim, dando um pulo de susto ao perceber que haviam ali, no mínimo, quinze mil reais em notas de cinquenta. Caminhou lentamente até a porta, observando se o dono estaria por ali, se por acaso teria voltado para buscar o envelope.
Ninguém no corredor. Ninguém na portaria. Ninguém. Seria um presente dos Deuses para realizar o tão desejado sonho de ir passar o dia dos namorados com o seu, no outro estado?
Andou pelas ruas da Cidade Alta imaginando o fim de semana romântico. Imaginando-se no avião, depois chegando e vestindo a lingerie. Tudo programado, tudo o que o envelope acre poderia pagar. Breve doce sonho.
Ao atravessar a praça um caminhão furou o sinal e apontou seu parachock exatamente em sua direção. Num piscar de olhos todos os pensamentos anteriores se passaram na mente da menina romântica por um fio e ela caiu. Barulho de buzina, gente gritando, pombas assustadas e suspiro de menina.
Caída no meio da avenida, tudo o que dava pra ver era a menina no chão entre a multidão. E ali jaziu ela, restando apenas lingerie vermelha e dinheiro do envelope acre ao vento.







